Ponto Cartesiano
12 Jan 2018 - 08h36m

Demorou mas saiu: decisão do governo de licitar matadouros, mesmo com atraso, ataca problema que aflige a população de perto de cem cidades

O governo abriu licitação para a construção de frigoríficos em oito municípios do Estado. Pelo valor especificado em editais de licitação de matadouros públicos em outras unidades federativas, cada um custaria algo em torno de R$ 300 mil. É a régua, um pouco mais, um pouco menos.

Deve-se realçar a relevância dos logradouros e a decisão do governo. No Estado, de 139 municípios perto de 100 não tem matadouros. E a lei manda pra cadeia (crime de detenção) quem faz abate clandestino ou comercializa carne sem fiscalização sanitária. Não sem boas razões.

De outro modo: a grande maioria da população do Estado é obrigada a consumir carne clandestina ou com preço mais elevado em função dos custos de transporte do gado ao frigorífico e no percurso inverso do produto até o consumidor. Ou fica sem a carne, ou paga o preço, ou come carne de procedência duvidosa, ou incorre em crime.

De forma que a não construção de matadouros (uma responsabilidade também das prefeituras que fazem vistas grossas) favorece, diretamente, os nove grandes frigoríficos que terminam, por força do mercado, monopolizando a carne, dificultando o acesso que, por conseguinte, elevando o preço no açougue.

Emerge daí uma relação de prioridades e interesses. O programa que o governo faz uso para a construção desses matadouros é de 2013. Há quatro anos está aí valsando enquanto as pessoas comem carne clandestina, açougueiros são multados e frigoríficos ganhando a rodo.

Cinco destes oito matadouros anunciados esta semana, por exemplo, assinaram protocolo de intenções para isso com o governo em setembro de 2015. Há mais de dois anos. É recurso do PDRIS (Banco Mundial), daquela linha de crédito de US$ 300 milhões. E só agora se faz a licitação.

Detalhe: ainda que não tivesse os recursos do empréstimo do Banco Mundial, de 2015 a 2017 o governo gastou R$ 82 milhões com consultorias, R$ 183 milhões com passagens e R$ 62 milhões com diárias. Uma soma de R$ 327 milhões. Dinheiro suficiente para construir mil matadouros.

O Estado só precisa de algo em torno de cem. Mas já é alguma coisa.

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