Ponto Cartesiano
12 Fev 2018 - 10h46m

Soja no Estado: hegemonia da commoditie na balança comercial do Tocantins é demonstração inequívoca do paradoxo do capitalismo

Do Centro-Norte do Tocantins ao Oeste da Bahia nestes últimos dois dias, é possível perceber razões para os números da balança comercial  do Estado. As plantações de soja dominam a área planada numa quase monocultura. Referendam os números divulgados na sexta pela Federação das Indústrias que mostram 99% das exportações do Estado representadas por soja in natura.

E aí não se pode deixar de observar consequências dessa produção de commodities. A primeira delas: o aumento da produtividade na agricultura  (mecanização) termina por expulsar empregos da zona rural, empurrando operários para as cidades.  E sem gerar  benefícios que os impostos poderiam injetar no Estado por força de isenções federais e estaduais. Impostos que poderiam subsidiar a indústria, agregar valores, criar empregos e movimentar a economia. 

Um novo êxodo rural  é, assim, alimentado à semelhança do verificado no século XIX. E aí vão para a fila dos desempregados, aumentando o fosso social das zonas urbanas. Nada mais eloquente que as maiores produções de soja no estudo publicado se verificarem nas zonas periféricas dos maiores conglomerados urbanos do Estado. Cinturões não de riquezas, mas de problemas sociais.

Outro efeito desse pêndulo se dá na valorização das terras. A procura de empresários do setor por mais áreas para a plantação da monocultura (e o seu preço no mercado internacional) faz com que o capital sobreponha sobre a sua função social. Na outra ponta, a população aumenta, mais pessoas necessitando de alimentos e as terras produzindo monocultura  por força dos preços de comércio internacional de produtos primários. Uma equação fatal.

Por outro lado, o Estado já importa produtos alimentícios quando faz uso de maior parte de sua área plantada para produtos que não consome, como a soja. Uma priorização por força de preços no mercado internacional. Mas dinheiro que não se traduz em benefícios diretos à economia regional.

Evidentemente que o pequeno proprietário é forçado economicamente a entregar suas áreas aos empresários da monocultura que  não influenciam nos preços regionais de forma direta (e sim indireta devido à pouca oferta dos produtos que a população do Estado consome) e, no limite, terminam também por engrossar os problemas das cidades.

Para o Estado, como se nota, haveria mais prejuízos que ganhos. Estes se localizariam no pequeno estrato social das maiores rendas, favorecendo  sua prevalência descomunal sobre a  maior parte da sociedade. É claro que o empresário está aí é para ter lucro mesmo. Mas há um problema  maior:  o uso dos governo desse desempenho, dando-lhe um caráter de ganho para o Estado encobre as deficiências do sistema e o que ele impõe às camadas de renda inferior.

A monocultura tem sua relevância assim mais para o empresário que para a economia regional. Muitos deles, em larga escala,  movimentam seu lucro nos Estados mais ricos do país, onde detém a sede de seus negócios. É o capitalismo de exploração não muito diferente dos barões do século XIX que faziam uso do trabalho escravo e colonial. Só que, por agora, esse sistema tem fundamentos na livre escolha no que, aliás, são coerentes com os princípios de oferta e procura. Ainda que não consiga encobrir o paradoxo do capitalismo entre oferta e demanda e as necessitadas da população que o sustenta.

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