Ponto Cartesiano
08 Ago 2018 - 01h35m

Amastha e seu labirinto:ex-prefeito não poderia renunciar e, renunciando, não poderia ter voltado atrás. De outro modo, proibido do sim e do não

O ex-prefeito Carlos Amastha recebendo críticas porque teria voltado atrás na mesma proporção (talvez até de maior intensidade) daquelas de quando teria renunciado. A situação expõe um labirinto: candidatando-se ou renunciando daria na mesma.

Uma intolerância de determinados segmentos não à sua postulação mas ao seu exercício de direito de querer e não querer. Ou mais ainda: de fazer política, executar estratégias ou de capitular a dúvidas e inseguranças predispostas em qualquer pessoa, podendo reexaminá-las e não sobrepô-las como determinantes no seu projeto.

Em post anterior, expus as contradições do seu discurso de renúncia e que a práxis que o determinava evidenciava uma variação perniciosa. Mas daí a negar-lhe o direito de fazê-lo é outra coisa. Por ser uma democracia, no Brasil se é permitido o funcionamento, por exemplo, de um PC do B (que Amastha julgou ser imprescindível) que na verdade prega uma ditadura de esquerda no país. Queria fazer do Brasil uma Cuba, URSS ou Albânia. E, supremo paradoxo, Amastha um capitalista e rentista assumido.

Estratégia ou não, a decisão de Amastha de renunciar e depois voltar atrás é um direito que lhe cabe. Da mesma forma que assiste a qualquer um a oportunidade de entender como lhe convém. Pode-se criticá-lo por suas ações mas, em absoluto, negar-lhes os movimentos e, por causa disso, impor-lhe uma resistência reacionária e certo modo tão arbitrária quanto as avaliações que se possa ter de suas condutas administrativas e, até certo ponto, histriônicas.

Fazer uso de tais premissas não passa de um sofisma barato: Amastha não é um bem ou um mal por manejar a política conforme observe mais producente aos seus projetos políticos de poder. O sim e o não são princípios (e não prerrogativas) das democracias. É jogo jogado. Já vi no Palácio Araguaia governador jogar aparelho celular no rosto de secretário e governador fazer campanha eleitoral de sua sucessão contra candidatura do seu partido, o seu próprio vice.

Siqueira Campos, por exemplo, fez pior: eleito, entregou o governo ao filho como uma sesmaria ou capitania hereditária e, não satisfeito, renunciou ao cargo, fazendo o mesmo com o vice, para que o mesmo filho fosse o seu sucessor no governo, herdando o que de fato e de direito não lhes pertencia. E não se importava com esse negócio de tratamento cordato quando contrariado.

E está aí recebendo honras e homenagens (inclusive de setores da imprensa), promessas de votos de gratidão, fazendo uso do pior que existe de compaixão que nada mais é que o maior disseminador de sofrimento e que termina tornando o sofrimento contagioso. Como já está mandando no governo e no projeto de reeleição de Mauro Carlesse, parece ser algo imanente e, ao que tudo indica, permanente, este contágio.

E aí restaria a indagação sobre quem (ou o quê) seria mais abjeto no regime democrático: o exercício de um direito individual de escolha constitucionalmente disposto. Ou o exercício de um direito de estado como prerrogativa particular individual. Um exercício teórico e de hermenêutica cairia bem.

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