Ponto Cartesiano
10 Jun 2018 - 08h41m

Coração e cérebro acelerados para mais uma romaria daqui a 60 dias: 1.440 horas nos separam de Nosso Senhor do Bonfim, como faço há oito anos

Entrei em contagem regressiva para a minha romaria anual ao Santuário de Nosso Senhor do Bonfim. Já estou no período de 60 dias que a antecede. Desde 9 de agosto de 2010 sigo todos os anos ao Santuário a pés, a partir de Palmas. Caio na estrada todo dia 9 de agosto. As vezes sexta-feira, outras sábado. Nao importa. O que vale é chegar ao Santuário antes do dia 15 de agosto. Já consumi oito dias, hoje o faço em quatro dias e meio os 243 km que separam a Capital do Santuário.

Essa foto aí de cima é da primeira romaria em 2010. É um trecho após a subida do rio Bagagem, sentido Natividade, a mais ou menos uns sete quilometros de Chapada de Natividade. Depois desta subida, se enxerga Chapada. Um trecho que normalmente hoje percorro no penultimo dia de romaria..Passo aí por volta das 14 ou 15 horas. Quase sempre depois de ter almoçado no trevo de Pindorama, uma subida para trás. Antes da descida do Bagagem que está uns 800 metros daquela curva que se ve desenhada atrás de mim nesta foto.

Aos amigos que sabem que tenho um pé no ateísmo passivo (e que também tem conhecimento de que ser ateu não é ser sem religião) entendem que o faço pela fé e pela força de Lis ao superar uma Leucemia Linfóide Aguda que a acometeu aos três anos em 2009. Lis, minha filhinha caçula, hoje aprecia seus doze anos a serem completados no próximo dia 11 de julho. Passados quatro anos do ciclo de tratamento determinado pelo protocolo médico. Mas continuo, todos os anos, indo ao Santuário. Uma atração que já toma conta do meu coração e do meu cérebro quanto inicia todo janeiro.

Compartilho, neste dia, trecho do livro que tenho em fase de revisão sobre os oito anos de caminhada ao Santuário e que pretendo dividi-lo com os leitores e interessados pelo assunto, tão logo as condições financeiras permitam-me sua edição e publicação:

“Capítulo I

Contemplando a imagem de um Cristo crucificado, olhar para os céus e sangue jorrando das chagas dos pés e das mãos, fincado naquela parede empoeirada, incrustrada sob arco romanesco, era inescapável deter –me e minha memória de se deslocar para o andor sobre umbrais nas ruas de terra batida.

Na esquina das ruas Grande e Pau D’Oleo a higidez de minha mãe mirando a dor no rosto de Jesus naquela cruz, protegido por empanados brancos, retornava meu pensamento ao que ela me passara, abraçando-me e aos meus irmãos, entoando cânticos para proteger-nos do humor dos trovões e da lâmina dos raios. Ainda que reinasse no campanário da igreja de que era devota um insolente para-raios exibindo sua imponência potencialmente arrebatadora.

Não entendia porque a oração pedia proteção às almas que foram para o céu, especialmente aos que mais precisavam. Haveriam almas que precisariam de mais e outras de menos.

Uma distinção que, se não vislumbrava sentido quando nos braços de minha mãe, seguiria sem compreendê-la, mesmo diante do olhar pio da imagem de Cristo, naquele santuário, entornada por tiras de fitas de pano coloridas, no altar fincado a uns 30 degraus do chão na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Numa inclinação em torno de 45 graus, formando um triângulo retângulo com a parede da igreja e o chão que a escadaria encimava.

A lembrança do andor seguindo pelas ruas, homens e mulheres na mesma profissão de fé, Jesus já descido da cruz que sublinhava o altar, carregado por ombros descalços e contritos, plasmava na fila humana que desenhava um caracol até o frontispício daquele Cristo em chagas.

Princípio e fim de dias de sacrifício e martírio pelas pedras da estrada, dores repisadas como as feridas nos cravos das mãos e dos pés do Cristo ainda não morto que a fé ressuscitaria.

Seis dias e meio se passaram e arrastando-me calçado em meias de algodão e sandálias de borracha, ombreei o pensamento nas ave-marias de minha mãe, buscando no seu rogai por nós que recorremos a vós, a força que me faltava. E galguei aquela escadaria quase arrastando-me como se subisse aos céus. E lá, agora, estivesse.

Tudo começara noves meses antes. Lis, a terceira de três, aos três anos, diagnosticada com uma grave enfermidade. Bastaram não mais que duas horas entre exames de rotina e a confirmação indesejada da presença da morte. E da impotência para compreender desígnios no contrapondo da racionalidade sem medianos.”

Um pouco de A cruz e o homem com seu cadeado

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4 Comentário(s)

  • Regina Reis | 14/06/2018 | 10:40Sua história daria também um ótimo documentário, mas antes, publiquemos o livro...
  • Rose Mauricia | 13/06/2018 | 11:41O primeiro livro é meu!
  • Silvia Pedreira | 11/06/2018 | 11:42Me vi agora na esquina da Rua Grande com a do Pau D’Óleo vendo a procissão de Senhor Morto e ouvindo Palmira entoar o cântico da Verônica. Só a degustação desse texto já me deu uma fome de leão para devorá-ló inteiro. Oxalá essa revisão não seja demorada e eu possa lê-lo antes do dia 15 de agosto, meu caro escritor e conterrãneo!
  • Arlete Carvalho | 11/06/2018 | 09:35A-guar-dan-do! Vamos promover uma pré-venda.
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